terça-feira, 28 de novembro de 2017

Evolucionismo Teísta - Crítica ao Texto Associação Cultural Montfort

Texto Montfort http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/evolucionismo/ Evolucionismo – Crítica ao texto
“A verdade é a adequação entre a coisa e o intelecto.” São Tomás de Aquino
O presente artigo pretende esclarecer alguns pontos de objeção a teoria evolucionista e mostrar que em nada ela pretende objetar a doutrina cristã católica, quanto aos biblistas literais protestantes não há nada a ser esclarecido dado que extrapolam a sagrada escritura a livro de biologia e paleontologia, apesar de convenientemente viverem e usufruírem de um mundo onde a biologia evolucionista lhes proporciona todo tipo de avanço nas áreas de saúde, alimentação, etc. Quanto aos católicos, mesmo que o mito do gênesis seja crido como a apresentação de fatos reais em relação a criação, sua interpretação de um modo geral nunca foi literal pelo magistério da Igreja, ainda assim, mesmo com uma leitura alegórica de boa parte do livro, restam aparentemente pontos de atrito com a doutrina católica, basicamente de cunho moral, onde a evolução se apresenta como uma realidade cruel que rege todas as criaturas e de cunho ateísta onde a teoria acabaria por eximir a necessidade de um Deus criador supremo e sustentáculo de toda vida. É preciso entender que a investigação científica honesta não tem pretensões filosóficas, metafisicas ou morais, mas simplesmente explicar fenômenos aos quais se aplica. O fato de termos defensores de heresias que se apoiam em teorias científicas não pode ser motivo para desacredita-las e assim foi o tratamento dado a igreja sempre a toda ciência. Desde o tempo do descobrimento do Heliocentrismo em nosso sistema planetário até os dias atuais. Assim começa o artigo:
“O evolucionismo é um dogma da mentalidade moderna!”
Note que a tese inicial do texto ao criticar a teoria da evolução é de cunho moral religioso, ou seja, o fato do evolucionismo servir de apoio a uma sociedade moralmente condenável, ateia ou agnóstica deveria invalidar a teoria em si no campo da biologia. Aponta ainda, de maneira pretensamente irrefutável que o evolucionismo é causa
“do relativismo triunfante”
, o que ainda que tenha algum fundo de verdade ou contribuição não refuta em nada a teoria da evolução, mas só cria uma pré-condição falaciosa para leitura do que segue com apelos de consequência e medo ante ao evolucionismo. Segue o texto:
“Também se evita reconhecer que a pretensa origem simiesca do homem não responde à questão fundamental posta pela teoria da evolução: de onde veio o universo? A negação de que o homem foi criado por Deus traz embutida a negação de criação do universo. Se o homem tem origem animal, de onde veio vida, e de onde veio a matéria prima do universo?”
Veja que agora o artigo começa por atribuir mais consequências diversas a teoria da evolução mais uma vez como se isso refutasse a teoria em si, mais falácias. E atribui ainda pretensões teológicas e cosmológicas a teoria, como se ela em algum momento tivesse buscado explicar alguma coisa além da origem das espécies e seu desenvolvimento natural. Nunca foi pretensão de Darwin ou de seus antecessores destituir Deus da criação ou mesmo explicar algum fenômeno astronômico, estas inferências, se feitas por alguém, não podem ser atribuídas a teoria da evolução em si. Nota-se mais um apelo de consequência... Atribui ainda que a Teoria da evolução leva ao panteísmo, e é carregada Gnose em seu pensamento, ainda mais quando aderida como “dogma indemonstrado”.
“O evolucionismo é então o dogma central de uma seita de caráter gnóstico, e, como toda seita, ele é intolerante.”
Veja é uma saraivada de acusações tão vasta que fica até complicado fundamentar uma crítica, mas note que novamente são falácias de consequência e atribui mais uma vez uma pretensão nada cientifica a uma teoria de ciência natural: Querer ser dogma! Mais uma acusação absolutamente desonesta contra o trabalho de milhares de biólogos e naturalistas científicos sérios que se dedicam ao estudo do mundo em que vivemos. A teoria da evolução é baseada inteiramente em método científico: Observação do fenômeno, elaboração de tese e validação. Foi enunciada por Darwin antes mesmo do descobrimento do DNA e de toda revolução genética e da microbiologia, ainda assim sua validação continua cada vez mais forte de modo que seus conceitos guiam de maneira plenamente satisfatória ações e estudos de saúde(vacinas, antibióticos), agropecuária(melhoramento genético e desenvolvimento e raças e cultivares, transgênicos, herbicidas, etc) e mesmo no campo da medicina, psicologia e psiquiatria onde observamos a embriologia exprimir com toda clareza caracteres vestigiais comuns entre o homem e seus ancestrais, órgãos vestigiais e muitos dos comportamentos herdados de nossos ancestrais influenciam até hoje nossas ações e comportamentos, vide reflexos condicionados, comportamentos de recompensa e todos os comportamentos e gatilhos químicos remanescentes plenamente observados nos seres humanos e nos animais. Mas vamos continuar no texto. Atribui mais algumas consequências político culturais e filosóficas ao Darwinismo ligando-o ao Marxismo, ao Nazismo e novamente enquadrando-o como fruto de uma mentalidade filosófica falsa e ao misticismo gnóstico. Finalmente quando pela primeira vez no texto trata efetivamente de uma critica a teoria falando do paradoxo da lenta evolução e da inexistência de fosseis intermediários abundantes que sustentem este mecanismo, o faz de maneira superficial. De fato o tema é um desafio para os cientistas ainda sim propostas como de seleção estabilizadora ou as centenas de arvores filogenéticas cada vez mais completas de fosseis a todo momento tem colocado mais luz sobre esta importante questão ainda não desvendada pelos cientistas. Sem falar de verdadeiros elos evolutivos vivos como salamandras, Ornitorrincos, Casuares e os cavalos de Przewalski, por exemplo que corroboram grandemente com o mecanismo. Voltando ao texto, nos próximos tópicos os autores criticam o evolucionismo sob a ótica da metafísica, embasando um pouco melhor as acusações anteriores de Gnose e panteísmo disfarçado da teoria evolucionista. A crítica tem alguns problemas, e estes estão em suposições que a teoria da evolução, nunca se arriscou a fazer: 1. Deus não tem papel na evolução Segundo o texto o evolucionismo teoriza que a força motriz para a evolução das espécies está na própria natureza, como se a natureza fosse uma entidade em si e não uma criação de Deus regida por parâmetros estabelecidos e regidos por ele próprio como é amplamente aceito nas outras ciências naturais como química e física. Acontece que o evolucionismo como ciência nunca entrou nesta seara, apesar de ícones do ateísmo como Richard Dawkins e outros militantes usarem desses argumentos de longe não representam os milhares de pesquisadores sérios e anônimos que longe da mídia trabalham para melhorar vidas e criar ferramentas científicas diariamente para toda humanidade usando o evolucionismo sem para isso militar pelo ateísmo. 2. A questão do ser e da forma Nunca também foi papel da evolução adequar suas constatações a questões metafisicas de identidade do ser, até porque é difícil em muitos casos estabelecer quando uma coisa passa a ser outra. As coisas são o que são, mas as classificações e elos de parentesco são critérios decididos pelo homem. A filogenética e a taxonomia não são ciências estáticas ou definitivas, mas que se adaptam as descobertas paulatinamente. O fato é que as coisas de fato mudam, vírus adquirem genes de outros vírus por incorporação, sofrem mutações, bactérias tem receptores de suas paredes celulares alterados a todo momento e por isso mesmo as reestudamos, reclassificamos e cuidamos em desenvolver novas medicações para combatê-las, até a própria definição de ser vivo é muito complexa quando nos deparamos com os príons, partículas puramente proteicas e autônomas causadoras de inúmeras doenças infecciosas. É uma tentativa pobre de refutação citar por alto a escolástica, dizer que um galho é diferente de um monte de cinza, falar sobre o princípio do ser em 20 linhas e ignorar que micro mudanças alteram diariamente os seres vivos, mutações surgem a todo momento e o esforço cientifico humano não cansa de reavaliar a natureza de modo a melhorar nossa relação com ela. As coisas não são simples assim. Será que filosofo escolástico também se vacina para Influenza todo ano ou admite que pelo princípio do ser aqueles vírus tem sua identidade imutável e se consideram imunizados?? Que tal liberarmos o uso indiscriminado de antibióticos e ver se Darwin tinha razão daqui a algumas décadas? Ou a criação só ocorre coincidentemente quando há pressão de seleção ou o mecanismo tem papel evidente na formação de populações de novos indivíduos! Voltando ao artigo, mais adiante trata de causa final e de complexidades irredutíveis. O primeiro argumento novamente admite que o evolucionismo exclua a ação de Deus, o que não é verdade. O fato dos cientistas não usarem Deus como explicação de suas lacunas de conhecimento não é prova de que sua ação esteja excluída do processo. Quando Newton postulou a teoria da gravidade como causa da atração dos corpos, poderíamos sob essa mesma linha de raciocínio dizer que Newton tirou de Deus a condução da maça rumo ao chão como Senhor absoluto das ações, veja que esse conflito não existe, essa linha de argumentação é uma falsa contradição. Encontrar o papel de Deus nos processos naturais é papel da teologia, o da ciência é de descobrir, ou tentar descobrir, como as coisas funcionam naturalmente. Quanto ao segundo, das complexidades irredutíveis, trata-se de um argumento muito usado pelos criacionistas, assim como a inexistência de macroevolução. Segundo eles, eventos de evolução em microescala, como bactérias resistentes a antibióticos, são até admissíveis e reconhecidos, mas o surgimento de novas espécies, um evento macroevolutivo, nunca foi mostrado. É uma argumentação míope, algo como admitir que placas tectônicas se movem e terremotos acontecem, mas ninguém nunca viu uma montanha aparecer ou um continente sair nadando, de fato há um amplo terreno escuro nos processos naturais ainda a serem investigados, mas registros fósseis e estudos de bioquímica molecular já nos dão pistas bastante boas de como esses processos funcionam, como por exemplo o caso do peixe engasga gato onde a alteração artificial de um único promotor de um gene faz o peixe mudar de sua forma sem espinhos de água doce para seu ancestral fóssil marinho com espinhos. Continua o texto falando sobre causalidade Novamente o texto distorce ou não entende realmente o que se pretende com a teoria da evolução, o texto admite que evolução se dá sempre para algo mais complexo ou maior, o que não é necessariamente verdade, talvez seja influencia daquela famigerada ilustração do homem evoluindo do macaco na sequência, e novamente se aproveita de lacunas grandes do conhecimento da biologia para acusá-la de falsa. A tendência para adaptação, a força da vida, a luta pela sobrevivência, não são invenções ateístas ou gnósticas, são fenômenos observáveis na natureza, a teoria da evolução não é um complô modernista é simplesmente fruto do amadurecimento destas observações por um gênio do seu tempo, assim como foi Newton, Galileu e muitos outros em outras ciências naturais. Na sequencia o texto passa a descrever o que ele chama de escolas evolucionistas, desde Lamarck até Neo Darwinianos de modo bastante simplista e sempre reiterando as acusações já postas acima. Logo após isso passa a mostrar fraudes de muitos pseudocientistas ou até alguns cientistas sérios que no afã de entrar para a historia com alguma descoberta ou realizar algum lucro financeiro acabou por denegrir a própria teoria científica, o que na pratica também não passa de argumentos ad hominem. Depois segue uma desonesta sequencia de declarações mentirosas sobre a teoria da evolução.
“A evolução molecular não se baseia em autoridade científica. Não há publicação na literatura científica -- revistas de prestígio, revistas especializadas ou livros -- que descreva como a evolução molecular de qualquer sistema bioquímico real “
Afirmações como essa são facilmente desmentidas com qualquer buscador publico ou consulta a revistas especializadas. Só no Brasil temos diversas publicações do professor Sergio Matioli, da professora Flora Fernandes e outros sobre o tema em diversas revistas de respeito internacional. E seguem mais acusações de que o evolucionismo é uma tentativa maquinista de produzir vida e novamente reitero que se existem biólogos ateus que o explicam dessa forma, erram e entram em seara diversa a ciência. Logo a baixo o grupo de autores começa uma explicação do tema fosseis e segundo eles as provas contra a evolução que eles nos dão ressaltam a explosão do cambriano e diversas ordens de seres vivos em especial suas transições “impossíveis” como da água para a terra. Aqui teríamos que escrever um tratado de paleontologia para defender a evolução mas peço apenas que procurem estudar, por exemplo, sobre o Tiktaalik roseae ou ler o livro
“A história quando éramos peixes”
do paleontólogo Neil Shubin, e segue assim até chegar nos fósseis de humanoides pré-históricos que são absolutamente desacreditados, até mesmo Lucy e fazem uma ressalva apenas para o homem de neandertal, já mais recente e de fosseis mais abundantemente descobertos e mais parecidos com nós que acabam por satisfazer as certezas dos autores e assim podem ser admitidos como nossos primeiros descendentes. Pronto, Adão Neandertal pode! O epilogo do artigo é dedicado ao que os autores entendem por evolucionismo teísta, ou evolucionismo cristão ou mitigado, segundo eles. Defendem que a tese de que a alma poderia ser infusa ao homem em um determinado estagio da evolução por Deus, é inadmissível dentro da Fé cristã pois seria uma teoria poligênica do surgimento do homem e não apenas de Adão e Eva como está descrito na bíblia e em conformidade com o catecismo, na realidade novamente essas explicações como muitas já feitas ao longo da historia devem ser feitas por teólogos, não é papel da ciência faze-lo, o fato é que mesmo evolutivamente nada impede que um único casal tenha iniciado uma linhagem de homens de fato como conhecemos hoje em consonância com leitura de Gênesis. Desacreditar a ciência ainda em construção não fortalece a Fé, apenas cria um conflito inexistente e deixa essa "Fé" a mercê das descobertas científicas, essa nunca foi a postura da Igreja Católica que tem convicção de que a Verdade é uma só não importa sobre que prisma a estudamos, científico ou teológico. Em resumo, quase nada é o que se sabe sobre o mundo que vivemos, ainda sim a fascinante busca por conhece-lo e domestica-lo é própria da humanidade. A biologia assim como outras ciências naturais é apenas mais um esforço de entendimento e domínio deste mundo nosso e
“nada em biologia faz sentido exceto à luz da Evolução” (Theodosius Dobzhansky)
, neste sentido ninguém nunca jogou tanta luz nesta ciência quanto o brilhante Charles Darwin. Luiz Alberto Patriota